Não é apenas 2018. Vamos renovar a política?

 

Em junho de 2013, o país foi surpreendido por uma série de protestos replicados em diversas cidades, reunindo multidões. Foram as maiores manifestações desde as “Diretas Já” na década de 1980 e do “Fora Collor” na década de 90. Os protestos das  “Manifestações de Junho” nasceram da reivindicação contra o aumento da tarifa do transporte público e se expandiram, na sua fase final, para bandeiras mais difusas e menos pontuais. Esse era o sentimento no seio da sociedade brasileira, o que estava no coração do povo, que lamentavelmente não foi traduzido nas urnas em 2014.

Depois da enorme demonstração de vitalidade política de junho de 2013, o país elege  o Congresso mais conservador  desde 1964, e com bancadas de interesses privados fortalecidas. Onde foi parar a energia libertária, democrática e igualitária que moveu parte das manifestações de junho de 2013 e das mobilizações que se seguiram?

As eleições presidenciais de 2014 foram marcadas pelo estelionato eleitoral das chapas que passaram para o segundo turno. Informações econômicas distorcidas além de um financiamento escuso, comandado por uma grande trama, descoberta posteriormente pelo Ministério Público Federal e desmascarada por operações da Polícia Federal.

 

Além disso, compareceram ao pleito,no primeiro turno 115.122.883 (80,61%) do eleitorado nacional. O número de abstenções correspondeu a 27.698.475 (19,39%). Os votos válidos somaram 104.023.802 (90,36%), brancos 4.420.489 (3,84%) e nulos 6.678.592 (5,80%) ou seja, mais de vinte cinco por cento dos eleitores não se sentiram representados. O sentimento de junho, provocou uma premissa de ‘já que ninguém me representa”, logo  “não vou votar’, mas como renovar aquilo que se abre mão de participar?

 

Falamos tanto de renovação da política, de uma nova forma de fazer política e corremos o risco de repetir os mesmos erros de 2014. Devemos ficar atentos. Não é de hoje que o debate se resume a nomes antagônicos, reduzindo a percepção para grupo “A “ou grupo “B” que podem ser faces de uma mesma moeda, deixando de lado, propostas e projetos reais que possam mudar a vida do povo.

 

A sociedade se mobilizou em torno de pautas diversas e não abaixo de uma bandeira partidária ,de entidade de classe ou em defesa de interesses privados. As causas eram coletivas, e nas eleições de 2014  elegemos poucos  que dessem essa representatividade.

Renovar a política é participar , propôr e praticar. De maneira tímida,vamos recuperando a fé na política e formando movimentos para influir na agenda pública. Trata-se de uma geração globalizada,  que exercita a cidadania construindo movimentos independentes, não governamentais em defesa de bandeiras  específicas, com uma posição clara e bem definida a respeito de cada tema.  Ao invés de apenas gritar palavras de ordem, pôde-se construir novas formas de reabrir as portas da representação política tradicional e,através disso, melhorar muito a representatividade na política brasileira que é prioridade zero em qualquer reforma que mereça esse nome, não resta dúvida. Em um Congresso cuja renovação a cada quatro anos é a de prenomes (ou a adição de “Jr.”, “Neto” e “Bisneto” ao sobrenome), urgem mecanismos para eleger deputados que não sejam só herdeiros do poder.

Renovar não é apenas votar em um rosto jovem, pois existem os jovens herdeiros. Também não é apenas ecoar o grito de “reeleger ninguém” e perdermos os poucos bons quadros que temos  e que devem continuar para ajudar no processo de transformação. Renovar é o exercício cotidiano de influenciar na mudança , participar ,ser criativo e “hackear ” a política tradicional, assim como os hackers da informática, são capazes de entender um sistema, encontrar suas brechas e transformá-lo por dentro.

 

Quer renovar a política? Usemos como exemplo a tentativa frustrada dos protestos de 2013 e das urnas de 2014. Participe, influencie e vote para que em 2018 os anseios verdadeiros da população brasileira sejam entendidos e a frustração dê lugar a esperança da renovação.

 

 

Emilio Façanha

Coordenador Executivo da Rede Sustentabilidade-AP

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